Vacinas

4. Não é só ao doente que cumpre lutar contra a doença; também os médicos e quantos de qualquer modo se relacionam com o enfermo devem por sua parte fazer, tentar e experimentar quanto pareça ser útil ao corpo e à alma dos que sofrem. Assim cumprirão a palavra de Cristo que mandou visitar os doentes, como se dissesse que se lhes confia o homem todo para o ajudar corporal e espiritualmente

Este excerto dos Preliminares do Ritual da Unção e Pastoral dos Doentes é muito importante quando abordamos os cuidados médicos, sobretudo agora que se procuram desculpas na fé cristã para rejeitar a vacina para o COVID-19.

Talvez influenciado pelos ambiente sócio-religioso nos Estados Unidos da América, embora sem terem em conta o contexto dessas posições, algumas pessoas rejeitam a vacina com base na sua fé. Não quero julgar a recta consciência dessas pessoas, mas quero ajudá-las ao discernimento nas suas opções.

A Ciência médica é diferente da Ciência Matemática porque as pessoas não são números. 1 é sempre 1, 2 é sempre 2, 2+2 é sempre 4, seja aqui em Portugal, seja nos Estados Unidos ou em Moçambique, seja na última galáxia do Universo. Cada pessoa é um ser vivo único e irrepetível, num determinado ponto do espaço e do tempo, que reage de forma diferente ao mundo que a circunda. E embora todos sejamos compostos de células que contêm determinados elementos comuns, o nosso código genético é único.

A consciência da fragilidade da vida humana e da unicidade de cada vida levaram que a medicina sempre estivesse unida à religião. A incerteza dos tratamentos médicos esteve sempre aliada à certeza da fé. Dai a exortação aos cuidadores para “fazer, tentar e experimentar quanto pareça ser útil ao corpo e à alma dos que sofrem”.

Dentro dos tratamentos médicos desenvolvidos ao longo da história da humanidade, uma das coisas que permitiu salvar milhões de vidas foi a invenção das vacinas. Em 1796 o médico Edward Jenner descobriu as mulheres que ordenhavam as vacas nunca contraíam a varíola, uma doença comum que chegou a afectar 95% das pessoas na Europa, com uma taxa de mortalidade acima dos 30%. A estirpe da varíola das vacas era muito mais benévola e quem a contraía ficava imunizado contra a varíola mortal. Assim se desenvolveu a primeira vacina que deu origem à erradicação desta doença no mundo.

Só no início do século 20, com a descoberta de instrumento analíticos da microbiologia foi possível desenvolver outras vacinas: tosse convulsa (1914) difteria (1926) tétano (1938). A grande descoberta foi a vacina da poliomielite em 1955. Na segunda metade do século 20 foram descobertas as vacina do sarampo (1963) papeira (1967) e rubéola (1969). Em 1977 a varíola foi erradicada graças à vacina descoberta em 1796.

A ciência médica continuou investigar e novas vacinas foram aparecendo para curar doenças até então mortais. Em 1985 apareceu a vacina para a gripe, por esta altura foi também descoberta a vacina contra a Hepatite B e contra a varicela.

Estes tratamentos preventivos (a vacina usa uma versão atenuada ou inerte das bactérias e virus para que o corpo crie despesas naturais para os reais perigos de infecção) salvaram a vida a milhões de pessoas ao longo dos dois últimos séculos.

Ao passo que as bactérias são organismos unicelulares, os virus são apelas cápsulas de proteínas e lípidos a envolver uma ou várias moléculas de ácido nucleico (RNA ou DNA) que só se podem desenvolver (reproduzir-se) dentro das células. Os virus não são organismos vivos e só são activos dentro das células.

Em 1931foi identificado o coronavirus em galinhas com sintomas de problemas respiratórios. Em 1960 foi descoberta a presença deste virus em seres humanos. Algumas estirpes destes virus provocam apenas uma constipação outros levam infecções respiratórias mais graves. O virus da gripe é do tipo coronavirus.

O SARS CoV-2 (coronavírus relacionado à síndrome respiratória aguda grave) teve o primeiro caso identificado en Whuan, China, em Dezembro de 2019 e rapidamente se espalhou a todo o mundo, à semelhança da Pandemia da Gripe Espanhola em 1018. Esta emergência levou a que os laboratórios farmacêuticos acelerassem a pesquisa de uma vacina para proteger a humanidade contra esta doença. O conhecimento científico dos anteriores coronavirus, o empenho das empresas privadas, o financiamento dos estados com a garantia de adquirir as futuras vacinas e a partilha de informação durante a investigação (a levaram a um rápido aparecimento de vacinas, que tiveram um período experimental mais curto, dada a emergência sentida em salvar a humanidade. Nos últimos dias de dezembro de 2020 começou-se um processo de vacinação da população mundial.

Uma pequena percentagem de pessoas não quer ser vacinada porque entende que não houve tempo suficiente para testar os efeitos secundários da vacinas. É uma tragédia não conseguir salvar a vida de quem nos está próximo, sobretudo após os tratamentos propostos pela medicina, mas é impossível alcançar uma existência de risco zero e nenhum tratamento funciona 100% em toda a gente. Há sempre contra-indicações e reacções não previstas. Por isso, normalmente, são exigidos tempos alargados para colocar um medicamento no mercado, mas numa situação de emergência os governos sentem-se na obrigação de providenciar cuidados de saúde imediatos aos seus cidadãos, usando os meios que a ciência, nesse momento, proporciona.

Ampliado pela facilidade e nivelamento de transmissão de informação que a internet possui, sobretudo através das redes sociais, o lugar onde tudo pode ser dito e onde muita gente encontra a informação que sustenta as suas escolhas, foi aumentando o número de razões para não ser vacinado, completamente irrealistas: a vacina era um chip para controlar a população mundial, a vacina reescreva o código genético, etc.

Uma outra razão apresentada para não tomar a vacina são razões religiosas porque alegadamente são usados fetos abortados na produção destas vacinas. Ora a Congregação para a Doutrina da Fé afirmou num documento de 21 de Dezembro de 2020, subscrito pelo prefeito dessa congregação, cardeal Luis Ladaria, e pelo secretário, dom Giacomo Morandi, e aprovado pelo Papa Francisco declarou pela licitude da utilização das vacinas contra o COVID-19: “é moralmente aceitável utilizar as vacinas anticovid-19 que tiverem utilizado linhas celulares de fetos abortados no seu processo de investigação.”

A relação entre as vacinas covid e o aborto não significa que seja usadas células de fetos abortados para produzir as vacinas. Durante a investigação e desenvolvimento da produção das Vacinas são usadas células humanas para estudar a sua eficácia usando células embriónicas renais que se reproduzem constantemente. Esta amostra celular (HEK 293) foi retirada de uma criança que morreu à nascença antes do tempo do parto em 1973. Estas células continuam a reproduzir-se até aos dias de hoje (uma célula divide-se em duas a cada 36 horas) e pela sua estabilidade celular são usadas nos primeiros testes de alguns medicamentos. Por isso nenhuma criança foi abortada para fazer as vacinas.

O Papa Francisco e o Papa Emérito Bento XI foram ambos vacinados contra o COVOD-19 e em 17 de Agosto através de um vídeo publicado no site do Vaticano o Papa Francisco exortou as pessoas a receberem a vacina contra o COVID-19 dizendo ser esse gesto “um acto de amor. Amor a si mesmo, amor à família e amigos, amor a todas as pessoas. Amor é também social e político. Transbordante de pequenos gestos pessoas capazes de transformas as pessoas e as sociedades.”

Influenciados pela cultura americana muitos católicos estão a tornar-se individualistas na sua vida cristã, pondo acima de tudo a sua relação pessoal com Deus, desligada da comunidade cristã e da caridade para com os outros. Durante a pandemia tive de dizer a muita gente: “os cuidados a ter não é para te protegeres da doença, é para protegeres os teus irmãos da doença.” 

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